Olhar de Novo

Os tempos não estão fáceis para ninguém. O mundo está a mudar e nessa mudança são arrastados muitos sonhos e frustradas muitas expectativas. É por isso normal um certo acabrunhamento que se nota por esse País fora. Ele não é muito diferente da apatia que contamina o continente europeu e contrasta com relatos de confiança que nos chegam de Países emergentes como a China ou o Brasil.

Embora profundamente embrenhado em tarefas da governação, agora ainda mais exigentes, procuro não perder o pulsar das gentes do meu País, rejubilando com as suas alegrias e sofrendo com as suas tristezas.

Sei que o governo está a fazer o melhor que pode e sabe para responder às dificuldades e para colocar Portugal na primeira linha da saída da crise. Esse esforço que acompanho e partilho dá-me a serenidade necessária para olhar o que se passa sem complexos nem preconceitos.

Confronto-me diariamente com gente entusiasmada com o que está a investigar, com a conquista de novos mercados ou com a afirmação internacional de novos produtos, mas encontro também muitos jovens desiludidos por não encontrarem emprego, gente na força da vida confrontada subitamente com a inutilidade do seu trabalho e múltiplas famílias preocupadas com o seu futuro ou com o futuro dos seus filhos.

O testemunho que quero partilhar convosco nesta crónica não é no entanto um testemunho interno, mas sim o relato de algo que já só não me surpreende por ser reiterado e frequente. Portugal visto por quem vem de fora e conhece mais do que os indicadores e estatísticas, é um país acolhedor, estimulante e fortemente atractivo.

Este facto faz – me reflectir se por vezes, em momentos menos fáceis, não será útil ganhar alguma distância, limpar a cabeça de ideias feitas e olhar de novo para a realidade a enfrentar, com disposição, força e atitude.

Julgo que vale a pena olhar de novo, sem preconceitos, para o nosso País, para conseguirmos ver nós todos aquilo de bom que os que vêem de fora ou regressam da diáspora são capazes de ver e em conjunto aproveitarmos a renovada perspectiva e o ânimo ganho, para sermos agentes activos da recuperação económica e social que está ao nosso alcance.

Mário Soares, um optimista e um grande político, sublinhou recentemente com tristeza o derrotismo com que muitos portugueses encaram as dificuldades. Derrotar o derrotismo é uma prioridade. Experimentemos a olhar de novo para o nosso País e para o potencial que ele tem, para sermos capazes de o conseguir.

PS: Morreu António Rodrigues Fernandes, o exemplo mais impar de cidadania militante, esforçada, desinteressada e disponível que pude conhecer na minha já longa experiência de vida política. O PS e Évora ficaram mais pobres, mas o Fernandes por tudo o que foi, continua a ser e a “viver” entre nós.
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