Visto de Casa (02/05)

Ontem o dia acordou cinzento. Quando saí à rua para comprar jornais, a primeira pessoa com que me cruzei saudou-me e disse-me “vizinho, belo dia para estar em casa”, como se não fosse lá que muitos de nós, eu incluído, temos passado grande parte do nosso tempo, deste que deflagrou a pandemia. 

Este pequeno episódio, permite-me voltar brevemente a um tema que já aqui abordei num diário recente. O governo, com o seu detalhado plano de desconfinamento entreabriu uma porta, mas quantas pessoas querem sair? Mesmo que queiram, quantas estão ainda tolhidas pelo receio, pela dúvida, pela habituação entretanto criada às rotinas da vida confinada?

São muitas, se não forem mesmo a maioria. Precisamos ir saindo, com rigor e cumprindo as normas, como se fossemos de mão dada, mas não indo. 

Os que vão começar a sair a partir de segunda-feira para reabrir pouco a pouco a vida em sociedade, precisam da solidariedade dos que o vão fazer para usufruir dessa reabertura. Se um lado não equilibrar o outro, o baralho desmorona-se.

Ultimamente tenho tido a oportunidade de participar nalgumas tertúlias virtuais em horário pós-laboral para refletir com gente amiga e de formação diversa sobre o Pós – Covid19. 

Sempre adorei tertúlias. Discorrer de forma livre sobre a vida e os seus desafios, no meio de amigos e em torno de um copo ou mais, é das coisas boas da vida. Fazê-lo na rede em vez do bar ou do recanto físico não é tão bom, mas a saudade faz milagres.

Debater o pós-Covid19 é desde logo algo de muito significativo. Assume o que já parece óbvio. Houve um antes e haverá um depois da pandemia, mas sendo seguro que o depois será diferente do antes, só será melhor se cada um de nós fizer escolhas que o permitam.

Esta pandemia é global e não tem passaporte, ou seja, mesmo fechando fronteiras físicas, encontra maneira de as saltar. Ao mesmo tempo o inimigo já tem nome, mas ainda é em larga medida desconhecido. Do ponto de vista político, como se tem visto, isso atrapalha e muito os nacionalistas e os populistas, porque as respostas para serem eficazes têm que ser coordenadas e de largo espetro. Têm que unir em vez de dividir.

A democracia é mais lenta que as oligarquias porque tem obrigação de ouvir antes de decidir e de informar de forma transparente, enquanto aplica e ajusta as decisões. Por isso as democracias pluralistas, sem tutelas nacionalistas ou populistas do estilo Donald ou Bolsonaro, arrancaram com alguma lentidão para o combate, mas têm vindo a conseguir melhores resultados.

Um pós-COVID19 que seja ao mesmo tempo pós-democrático, como alguns alvitram, seria um pesadelo atrás doutro. Vate retro. Até amanhã, com muita saúde para todos. 
  

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